Passa um cão pela rua, o sol sobre seu corpo magro o faz desprotegido. É como muitos, só um transeunte que tenta sobreviver, um ser que vive mesmo nas ruas ou, de outro modo, que escapou de casa, deu uma fugidinha e deixou seu dono (ou dona) preocupado(a).
Observo-o e, como sempre, tenho vontade de lhe prestar cuidados, dar-lhe água, comida, atenção. Mas nem sempre posso, obviamente. São muitos os cães de rua e eu não tenho poderes para cuidar de todos.
Reencontro-o, às vezes, na mesma ou noutra rua. Deduzo, desta vez, ser ele um animal abandonado. Penso no abandono. Você pensa nisso? Imagine então viver sob a própria sorte, sem teto, sem comida certa, sem um lugar para beber água, sem ter um abrigo aonde dormir! Imagine viver em perigo e contar apenas com a sorte de encontrar o que precisa, seja por acaso ou pela mão de alguém que, sensível, seja capaz de ajudar! É isso. Abandono. Sob nosso olhar, nossa pressa e nossa indiferença. Abandono.
Tenho certo sentimento de derrota ao ver o que mundo me oferece como sofrimento, como o cão que por aí vaga e, de repente, se me aparece, com a língua de fora, cara de sede e de fome. E imagino se a realidade total da vida haverá de, um dia, me informar que todas as justiças foram feitas e que ninguém, nem cão nem gente, ficou sem a atenção e a ajuda devidas. Imagino que, no fim das contas, tudo isso venha a fazer sentido, pois, de outro modo, hei de pensar que a vida, a de nós todos e a deste cão que vaga pelas ruas, é algo apenas insensato, sem sentido.
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Pequeno, mas possível. E suficiente. Mínimo, humilde, adequado. Este bloguinho de nome curioso - Só Um Transeunte -, o qual se quer simples e de bom uso, é administrado por Webston Moura, que é Tecnólogo de Frutos Tropicais, cronista e poeta.


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